Expresso
20 de Dezembro de 2008
Instituições recusam brinquedos velhos
Há quem use a quadra para se livrar de artigos estragados
No Natal dar é uma tradição. Mas há quem aproveite este hábito para limpar a casa. Trata-se de uma constatação feita por várias instituições de solidariedade, que deixaram de pedir brinquedos usados por verificarem que muitos deles chegavam em mau estado. Os exemplos são muitos: bonecas sem cabelos, puzzles com falta de peças, carrinhos sem rodas, livros nos quais faltam páginas.
“Os meninos sem família também têm o direito de receber brinquedos novos e em bom estado. Aceitamos brinquedos usados, mas têm de estar em boas condições”, refere Alexandra Sousa, da Fundação do Gil, que este Natal optou por não fazer qualquer campanha de recolha de brinquedos. Também Ana Maria Santos, da Cáritas de Lisboa, considera que” é preciso manter a dignidade de quem recebe. As pessoas não têm que obter lixo só porque são pobres. Aceitamos brinquedos usados, mas desde que tenham sido estimados. É importante que quem recebe se sinta respeitado.”
Também a presidente da Associação de Cooperação e Cultura, Maria Lúcia Alves Mendes, afirma que “não podemos despejar lixo para os outros”, daí que para o projecto Banco do Brinquedo, que arrancou este ano, apenas tenham sido pedidos brinquedos em bom estado. A Cruz Vermelha pede igualmente apenas brinquedos novos, até porque não tem capacidade para restaurar os que lhe são entregues em más condições, explica Sara Sampaio, do gabinete de comunicação.
“Por vezes temos nós que deitar fora os objectos estragados e isso faz-nos sentir mal. Parece que somos nós quem está a desperdiçar”, lamenta, por sua vez, Ana Maria Santos.
Dar depois do Natal
Numa altura em que muitas crianças recebem prendas em excesso e, por vezes, até brinquedos repetidos, o Banco do Brinquedo disponibiliza-se para receber o que essas crianças quiserem oferecer a meninos institucionalizados, já depois do Natal.” O objectivo é que as crianças prescindam de um brinquedo bom, ensiná-las a ser solidárias”, afirma Maria Lúcia Alves Mendes.” Hoje em dia, mesmo em famílias pequenas, depressa se oferecem muitos brinquedos a uma só criança. Basta que os pais, os avós, um tio ou um padrinho ofereçam algo”, diz no rescaldo de uma campanha de Natal que superou as melhores expectativas. Logo na primeira acção, com a qual pretendia recolher mil brinquedos, o Banco do Brinquedo não tem tido mãos a medir para conseguir organizar e distribuir todos os que recebeu em dois centros comerciais de Lisboa e de diversas escolas da cidade.
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| Maria Lúcia, do Banco do Brinquedo, entrega prendas à Associação Emergência Social |
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Também são várias as empresas que compram ou recolhem brinquedos que oferecem a instituições. É o caso da Rodoviária de Lisboa, que entrega o produto da recolha, feita entre os clientes e colaboradores, a instituições localizadas nos concelhos de Loures e Odivelas, principais áreas em que actua. A Prosegur, por exemplo, ofereceu brinquedos como bicicletas, trotinetas e pistas de automóveis às crianças da Associação CrescerSer.
Outro caso que excedeu as melhores expectativas é o da campanha de uma cadeia de lojas de brinquedos, a Imaginarium, que em conjunto com a TMN e a Cáritas convidaram as famílias a levar até pontos de recolha espalhados por todo o país uma caixa de sapatos com pequenos presentes. As caixas foram enchidas com brinquedos e estão agora a ser entregues às crianças beneficiadas pela Cáritas. A campanha arrecadou 35 mil caixas em 40 lojas, ultrapassando os números de Espanha – país sede da Imaginarium – onde só foram entregues 25 mil caixas. Nesta iniciativa, os brinquedos oferecidos podiam ser usados, desde que estivessem em bom estado. Ana Maria Santos, da Cáritas de Lisboa, verificou alguns milhares de caixas e garante “Não vi um único brinquedo estragado”. Impressionada com a generosidade das crianças, afirma que é possível retirar desta experiência uma grande lição para os adultos. “Há caixas lindíssimas com colagens e pinturas. Dá para ver que foi lá posta muita ternura. Várias crianças escreveram votos a dizer que esperam que o menino a que se destina a caixa seja muito feliz”. |
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